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Essa Descoberta propagou-se rapidamente pela Europa e pela América, também envolta numa utilização profana, que se estendeu desde feiras a salões de espiritismo. Compreende-se como terá sido perturbadora, na época, a possibidade de ver os próprios ossos. Numa carta, Bertha refere ter ficado aterrada quando viu a radiografia da sua mão, a ponto de julgar ser um sinal de morte iminente.
As dúvidas iniciais quanto à utilidade clínica dos raios X e o seu emprego por charlatães, avivaram a controvérsia em torno da Descoberta. As circunstâncias políticas, decorrentes da tensão entre a Inglaterra e a Alemanha, acirraram as discussões sobre os reais méritos das investigações de um alemão.
O Kaiser da Alemanha quis dar o aval à seriedade da Descoberta mandando, solenemente, radiografar o seu braço. Outro tanto, fez D. Amélia de Bragança, que se deslocou ao Laboratório de raios X do Hospital de S. José. Os episódios do Ultimato Inglês e do Mapa Côr de Rosa poderão não ter sido estranhos à atitude da soberana portuguesa. A Rainha de Portugal foi, ainda, mais longe e mandou radiografar várias damas da Côrte, para despiste dos malefícios dos apertados espartilhos da época. Decerto que as limitações técnicas de então, impediram qualquer conclusão clínica.
Os efeitos biológicos da radiação X foram uma surpresa, que causou perplexidade. A queda dos pelos não foi aviso suficiente. Pelo contrário, foi prontamente utilizada em salões de beleza, para depilações ... A seguir, veio o terror pelas queimaduras subsequentes.
O conhecimento das acções biológicas deu lugar à aplicação em lesões malignas, num entusiasmo desmedido por inalcansáveis possibilidades terapêuticas. Estas características dos raios X deram-lhe cedo um alargado enquadramento científico.
Tendo sido atribuído a Roentgen o primeiro Prémio Nobel, os raios X ficaram indissoluvelmente ligados ao mais alto galardão científico. Por isso, muitos julgam que Egas Moniz recebeu essa distinção pela criação da Angiografia, quando o Prémio lhe foi atribuído pela Leucotomia pré-frontal. Mas, na verdade, os métodos de Egas Moniz e dos outros Pioneiros da Angiografia avultam entre os principais avanços da Medicina dos nossos tempos. É inalienável dever recordar os nomes, e as descobertas, da Escola Portuguesa de Angiografia: Egas Moniz (primeiro investigador e criador da angiografia cerebral); Reynaldo dos Santos (Aortografia); Lopo de Carvalho (Angiopneumografia); Cid dos Santos (Flebografia); Hernâni Monteiro (Linfografia); Sousa Pereira (Portografia); Ayres de Sousa (Pai), (Angioquimografia). Este último foi, ainda, o criador da Escola Portuguesa de Microangiografia, que temos procurado honrar, através de inyestigações conduzidas no sector submacroscópico da circulação.
A visão do interior de um corpo, sem tocar no hábito externo, criou um fascínio, desde o científico ao popular. Passado um século, continua a ser tanto uma base de técnicas indispensáveis à Medicina, como fonte de inspiração para desenhos humorísticos.
Os progressos vindos desde a II Guerra Mundial arrastaram a evolução de numerosas técnicas radiológicas. Os aparelhos foram-se tornando mais sofisticados e mais caros. Aos primeiros inventos realizados por radiologistas, e improvisados
artífices, sucedeu-se uma indústria de alta tecnologia. Mas, entre os mais engenhosos aparelhos dos primeiros tempos da Radiologia deve incluir-se o Radiocarroucel de Pereira Caldas, que foi o primeiro seriógrafo utilizado em Angiografia.
Hoje, os equipamentos de raios X passaram a incluir-se nas rubricas industriais dos países mais avançados. Esta realidade estabeleceu o novo mapa geográfico dos avanços da Radiologia.
Mas, tanto nas zonas iluminadas como escurecidas desse mapa, mantém-se uma auréola de poder mágico envolvendo tudo o que diz respeito aos raios X. O imaginário, nascido há um século com a Descoberta, ainda se não consumiu na trajectória do tempo.